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O arquétipo de Campbell à luz da individuação de Simondon. Notas para uma crítica do monomito

Em 1949, Joseph Campbell publicou The Hero with a Thousand Faces, uma obra que propunha algo ambicioso: demonstrar que as narrativas heroicas de todas as culturas — dos mitos gregos às lendas navajo, dos contos de fadas europeus às tradições budistas — obedeciam a um mesmo padrão estrutural profundo, que ele chamou de Monomito. Mais do que uma tese de mitologia comparada, Campbell oferecia uma teoria sobre a relação entre mito, psique e metafísica. Os arquétipos narrativos que ele identificava — a partida, a iniciação, o retorno — não eram para ele meras recorrências formais, mas expressões simbólicas de processos psíquicos universais, enraizados naquilo que Jung chamava de inconsciente coletivo e que as tradições religiosas, cada uma à sua maneira, reconheciam como manifestação do sagrado. "Seja o herói ridículo ou sublime, grego ou bárbaro, gentio ou judeu, sua jornada varia muito pouco em seu plano essencial," escreve Campbell.1 As mil faces do título não me parecem ser, para Campbell, mil estruturas distintas, mas sim manifestações de uma mesma forma, como moedas cunhadas pelo mesmo carimbo.

Mas o que acontece quando perguntamos de onde vem essa estrutura? Quando rastreamos a palavra arquétipo até sua raiz material, não encontramos uma revelação sobre a alma humana, encontramos uma oficina de cunhagem. Arché, origem; túpos, golpe, impressão. Como escreve o filósofo francês Gilbert Simondon, "o Arquétipo — de ἀρχή [arché], que significa 'origem,' e τύπος [túpos], que significa 'impressão' — é o primeiro modo. Essa palavra designa o carimbo por meio do qual se pode cunhar moeda, o que hoje chamamos de marca de autenticidade. O τύπος é a impressão e também o golpe. Com uma peça de aço gravado, caracteres podem ser estampados numa tableta de metal precioso, e esse arquétipo pode produzir a mesma figura, a mesma configuração com essa matéria deformável da tableta metálica."2 O arquétipo era, portanto, um molde único, aplicado repetidas vezes sobre metal maleável, produzindo peças reconhecíveis porque derivadas da mesma forma. Dessa cena técnica nasceu uma das ideias mais persistentes do pensamento ocidental, a de que existe um modelo primeiro, eterno e superior, do qual tudo o que existe é cópia imperfeita.


I. A dupla herança: forma arquetípica e forma hilemórfica em Campbell

De um lado, a forma arquetípica, de origem platônica, é a forma como um modelo eterno, superior a todas as suas cópias. Assim como o carimbo de aço é ontologicamente superior às moedas que produz, se uma moeda se perde, perde-se apenas uma cópia; se o carimbo se perde, a perfeição original se degrada para sempre. A Ideia platônica é o modelo do qual as coisas do mundo são reproduções cada vez mais imperfeitas. A relação entre modelo e cópia é vertical: de cima para baixo, do perfeito para o imperfeito, do uno para o múltiplo.

Em Aristóteles, a forma opera de outro modo. Ela não paira acima do mundo, ela está dentro do ser individual, no composto concreto de forma e matéria que Aristóteles chamava de súnolon.3 A forma hilemórfica é operatória: ela porta virtualidade, tendência, instinto. Não é anterior à gênese, mas participa dela. O tijolo não é cópia de um Tijolo eterno; é o resultado de uma operação concreta em que uma forma (o molde do paralelepípedo) encontra uma matéria (a argila preparada).

Simondon reconhece méritos nas duas tradições, mas nota que nenhuma delas é suficiente. A forma platônica serve para pensar o coletivo e a norma, mas não dá conta do devir e da singularidade. A forma aristotélica serve para pensar o processo e a gênese, mas tende a reduzir a individuação a uma imposição de forma sobre matéria passiva. O longo desenvolvimento da filosofia medieval e renascentista, observa ele, "não encontrou uma correlação perfeita, um verdadeiro metaxú, ou termo intermediário, que pudesse unir completamente a forma arquetípica e a forma hilemórfica."4

Campbell me parece operar nos dois registros ao mesmo tempo. Seu arquétipo é platônico na medida em que é imagem eterna do inconsciente coletivo, um padrão que antecede e transcende qualquer herói particular. Mas também é aristotélico, na medida em que deve realizar-se dentro da vida concreta. O indivíduo precisa percorrer a jornada, encarnar as etapas, passar pela provação no próprio corpo e na própria psique. A Jornada do Herói é o processo pelo qual uma vida particular assume a forma de um padrão universal, assim como a argila que preenche o molde. O monomito funciona simultaneamente como modelo transcendente e como roteiro imanente, e é dessa oscilação que ele extrai boa parte do seu poder de convencimento: quando parece abstrato demais, aponta para a experiência vivida; quando parece particular demais, invoca a universalidade do padrão.


II. O que o esquema hilemórfico esconde: a "zona obscura"

Para compreender o alcance da crítica de Simondon, é preciso acompanhar o exemplo a que ele retorna repetidamente: a fabricação de um tijolo de argila. Trata-se de uma operação técnica aparentemente simples, em que argila preparada é comprimida num molde de formato retangular e, depois de seca, produz o tijolo. É desse tipo de operação que o esquema hilemórfico extrai o seu modelo, que é o de uma matéria que recebe uma forma. Simondon mostra, contudo, que se olhamos mais de perto, a operação real é muito mais complexa do que o esquema sugere. O esquema hilemórfico, diz ele, "corresponde ao conhecimento de alguém que permanece fora da olaria e não considera senão o que entra e o que sai dela."5 Quem olha de fora vê a argila entrar e o tijolo sair. Vê a matéria bruta de um lado e o objeto formado do outro. Mas não vê o que aconteceu no meio — e é justamente no meio que tudo se decide.

Para saber o que de fato ocorre, diz Simondon, não bastaria entrar na olaria e trabalhar com o artesão: "seria preciso penetrar no próprio molde para acompanhar a operação de tomada-de-forma nas diferentes escalas de grandeza da realidade física."6 A frase é estranha de propósito. Ela convida a imaginar algo que normalmente não imaginamos, que é o interior do processo, o momento em que a argila ainda não é tijolo mas já não é apenas argila, o instante em que forças, tensões e energias estão em jogo e o resultado ainda não está decidido. É essa zona intermediária entre a matéria que ainda não recebeu a forma e o objeto que já a possui, que o esquema hilemórfico apaga. Simondon identifica aí uma "zona obscura": "a existência de uma zona média e intermediária entre a forma e a matéria (a zona das singularidades que são as iniciadoras do indivíduo na operação de individuação) certamente deve ser considerada uma característica essencial da operação de individuação."7

A tomada-de-forma não é um encontro passivo entre um molde e uma massa inerte. É um sistema energético, onde a argila precisa estar preparada, umedecida, amassada, carregada de uma certa plasticidade; e o molde precisa funcionar como limite topológico de um campo de forças. A forma é o que modula a distribuição da energia; a matéria é o que carrega essa energia. Sem essa condição energética, nada acontece. A argila seca não preenche o molde e a areia úmida não mantém a forma. O esquema hilemórfico retém apenas os extremos — a matéria bruta e a forma pura — e deixa desaparecer a mediação real. Para Simondon, a energia não é um mero acréscimo ao par forma-matéria, mas a condição sem a qual a operação inteira não existe: "a condição energética é essencial, e ela não é trazida apenas pela forma; o sistema inteiro é o centro de energia potencial, precisamente porque a tomada-de-forma é uma operação em profundidade no interior de toda a massa."8

Simondon insiste, além disso, que cada operação de tomada-de-forma é singular. Mesmo quando o molde é o mesmo, as condições nunca são exatamente as mesmas: a temperatura da argila, a distribuição de umidade, a pressão aplicada, o momento em que o equilíbrio se estabelece. Tudo isso varia. A forma do molde é abstrata; o tijolo concreto é o resultado de uma operação que aconteceu desta vez, nestas condições. "Cada ato de fabricação," escreve Simondon, tem "uma existência singular de uma forma particular."9 Ora, é precisamente essa singularidade que desaparece quando subsumimos cada operação sob um padrão geral, como se o que importasse no tijolo fosse apenas o fato de ser um paralelepípedo, e não as condições irrepetíveis que o fizeram existir.

Há ainda o que Simondon chama de metaestabilidade, um estado que não é nem o equilíbrio estável (onde nada mais pode acontecer) nem o caos (onde nada se sustenta), mas um equilíbrio tenso, carregado de potenciais, capaz de se transformar quando uma singularidade o atravessa. O exemplo que ele usa é o do cristal. Um cristal não é uma forma geométrica imposta sobre uma substância química. Ele emerge das tensões internas de uma solução supersaturada, um sistema metaestável que, ao ser atravessado por um germe cristalino (uma singularidade), se reorganiza progressivamente, faceta por faceta, sem que nenhum molde externo lhe dite a estrutura. Simondon chama esse processo de transdução, uma operação pela qual "uma estrutura emerge das próprias tensões de um campo, sem precisar de molde externo." A estrutura se propaga a partir de cada ponto de resolução para o ponto seguinte, como uma onda que vai criando suas próprias condições à medida que avança.

Agora voltemos a Campbell. O monomito descreve com elegância o que entra e o que sai: o herói no mundo comum (matéria bruta) e o herói transformado com o elixir (objeto formado). As etapas intermediárias são narradas como estações de um percurso cujo traçado já está dado. A operação real de transformação, porém — aquilo que faz este indivíduo, nesta crise, com estas tensões específicas, individuar-se de um modo que não é redutível a nenhum outro —, desaparece sob o padrão. Campbell reconhece que os detalhes variam, que elementos podem ser omitidos ou fundidos, que "as mudanças executadas sobre a escala simples do monomito desafiam a descrição."10 Ainda assim, essas variações são tratadas como acidentes em relação à estrutura essencial, assim como as desigualdades do metal na cunhagem de moedas. O que Simondon propõe é que esses supostos acidentes são a individuação. Retirar-lhes o estatuto de princípio é perder exatamente o que se pretendia explicar.


III. O inconsciente entre Campbell e Simondon

Campbell não ignora a complexidade da vida psíquica. Ao contrário, faz dela o centro da sua teoria. O monomito não é apenas uma estrutura narrativa, é uma cartografia do inconsciente. Campbell segue a trilha de Jung, onde os arquétipos são as "formas eternas do sonho," imagens primordiais que habitam o inconsciente coletivo e que afloram nos mitos, nos ritos e nos sonhos de todas as culturas. "O sonho é o mito personalizado, o mito é o sonho despersonalizado," escreve ele; "ambos são simbólicos, do mesmo modo geral, da dinâmica da psique."11 A diferença é que no sonho as formas são distorcidas pelas perturbações particulares do sonhador, enquanto no mito "os problemas e soluções apresentados são diretamente válidos para toda a humanidade."12

Campbell vai além e estabelece uma equivalência que imprime ao seu modelo uma ambição vertiginosa. O reino metafísico é o inconsciente; o inconsciente é o reino metafísico. O que a psicanálise lê como conteúdo psíquico e o que a tradição religiosa lê como manifestação do divino são a mesma coisa contemplada de lados diferentes da mesma porta. O herói é aquele que, "ainda em vida, conhece e representa as reivindicações da superconsciência que através de toda a criação é mais ou menos inconsciente."13 A jornada heroica é a descida ao inconsciente e o retorno com aquilo que lá se encontrou: não um conteúdo particular, mas o contato com a fonte única que anima toda a existência, "interior e exterior, psíquica e cósmica." O deus crucificado, oferecido "a si mesmo por si mesmo," é para Campbell a expressão máxima dessa convergência: o ponto em que Deus desce e o Homem ascende é a mesma porta solar, a mesma coincidência de opostos.

É preciso reconhecer a grandeza dessa construção antes de submetê-la à crítica. Campbell não está simplesmente dizendo que os mitos se repetem, está dizendo que eles se repetem porque tocam algo que é ao mesmo tempo o mais íntimo da psique e o mais vasto da realidade. O arquétipo, na sua leitura, não é um clichê narrativo, é o ponto de articulação entre o humano e o cósmico. Como ele próprio escreve: "Os arquétipos a serem descobertos e assimilados são precisamente aqueles que inspiraram, ao longo dos anais da cultura humana, as imagens básicas do ritual, da mitologia e da visão."14

Simondon, no entanto, recusa o pressuposto sobre o qual toda essa construção se apoia, que é a ideia de que o inconsciente é um repositório de formas.

A crítica é direta. Tanto a psicanálise quanto a psicologia analítica de Jung, que Campbell adota, trataram o inconsciente "como uma psique completa, de certo modo copiada de uma consciência que pode ser apreendida."15 Elas projetaram sobre o inconsciente a mesma estrutura da consciência, povoando-o de imagens, figuras e narrativas organizadas, uma espécie de teatro interior com seus personagens e seus roteiros. Os arquétipos junguianos são exatamente isso, são formas reconhecíveis, dotadas de estrutura, que a consciência pode eventualmente trazer à luz. O inconsciente, nessa leitura, é um museu cujas peças aguardam o visitante.

Simondon propõe algo muito diferente. Para ele, a camada fundamental do que chamamos de inconsciente não é representativa, o que equivale a dizer que ela não é feita de imagens ou figuras. O que há de mais decisivo no sujeito não é nem a consciência clara nem o inconsciente profundo, mas uma zona intermediária entre ambos, que Simondon vai chamar de subconsciência afetivo-emotiva.16 É essa camada que constitui "o centro da individualidade." A intimidade do indivíduo, escreve Simondon, "não deve ser buscada no nível da consciência pura ou do inconsciente orgânico; deve ser buscada no nível da subconsciência afetivo-emotiva."17

O mais próprio do sujeito não são formas a serem reconhecidas, mas tensões a serem individuadas. A afetividade, para Simondon, é aquilo que "indica ao sujeito que ele é mais do que o ser individuado e que contém a energia para uma individuação ulterior."18 Ela não é o eco de uma forma eterna que se manifesta em nós, mas o sinal de que há uma carga de realidade pré-individual19 que ainda não se resolveu e que pede novas individuações. Os elementos representativos inconscientes até existem, reconhece Simondon, mas são "estereótipos bastante grosseiros desprovidos de verdadeira realidade representativa."20 A verdadeira profundidade do sujeito não está nas imagens, mas na tensão entre o que já se individuou e o que ainda não encontrou forma.

A distância entre as duas posições é enorme, e vale medi-la com precisão. Para Campbell, o herói desce ao inconsciente e lá encontra os arquétipos, formas que já existiam antes dele e que ele precisa reconhecer, assimilar e trazer de volta. A transformação consiste em tomar consciência daquilo que já estava dado. Para Simondon, não há formas prontas esperando no fundo da psique. O que há é uma carga afetiva, uma tensão irresolvida entre o que o sujeito já é e o que ele ainda carrega de potencial não individuado, e essa tensão não tem forma prévia. Ela não pede reconhecimento, pede individuação. E a individuação, por definição, não pode ser antecipada por um padrão, porque ela é a emergência de algo que não existia antes de emergir.


IV. A questão do retorno: estabilidade versus metaestabilidade

Se há um momento em que o modelo de Campbell revela com mais clareza sua estrutura profunda, é no retorno. A jornada não estará completa enquanto o herói não voltar. Campbell é enfático: o retorno e a reintegração com a sociedade são "indispensáveis à circulação contínua de energia espiritual no mundo" e constituem, "do ponto de vista da comunidade, a justificação do longo retiro."21 O herói que recusa o retorno, falha. O herói que retorna e não é compreendido, é uma figura trágica. O herói que retorna e entrega o seu dom, realiza o ciclo. Em todos os casos, o modelo pressupõe que a jornada tem um fim natural, e que esse fim é o fechamento do circuito: saída e volta, descida e subida, perda e restauração.

Campbell descreve esse fechamento com imagens de reconciliação. O herói se torna "senhor dos dois mundos" — o mundo comum e o reino sobrenatural — e conquista a "liberdade de viver," que é a capacidade de habitar o presente sem ser puxado para a frente pela esperança nem para trás pelo medo. O elixir que ele traz consigo restaura o mundo. A última etapa da jornada é, portanto, uma etapa de equilíbrio, onde o herói encontra a sua forma, realiza o seu padrão, e agora repousa na coincidência consigo mesmo. Campbell formula isso com clareza: "O objetivo do mito é dissipar a necessidade dessa ignorância vital, efetuando uma reconciliação da consciência individual com a vontade universal."22

É exatamente aqui que Simondon identifica o equívoco mais profundo do pensamento hilemórfico e, por extensão, do pensamento arquetípico. Tratar o equilíbrio estável como destino é confundir a morte com a realização.

Para Simondon, um sistema em equilíbrio estável é um sistema que esgotou seus potenciais. Nele, nada mais pode acontecer. Toda a energia foi distribuída de maneira uniforme e não há mais tensão, não há mais diferença, não há mais capacidade de transformação. É o estado de uma pedra no fundo de um vale que não vai a lugar nenhum porque não há mais nenhum gradiente que a mova. A termodinâmica chama isso de morte térmica, o ponto em que a entropia é máxima e a capacidade de trabalho é zero.

O ser vivo, o ser psíquico, o ser social não funcionam assim. Eles funcionam em regime de metaestabilidade: um equilíbrio que não é ausência de tensão, mas tensão sustentada. O sistema metaestável carrega potenciais, disparidades internas, incompatibilidades não resolvidas, reservas de energia que nenhuma forma presente consegue esgotar. Ele é estável o suficiente para existir, mas instável o suficiente para se transformar. A transformação, quando vem, não é o preenchimento de uma forma prevista, é a emergência de uma estrutura nova, disparada por uma singularidade que atravessa o campo de tensões e o reorganiza de modo imprevisível.

Retomemos a imagem do cristal. O cristal não "retorna" a lugar nenhum. Ele cresce, e cresce nas bordas, no ponto exato onde a estrutura já individuada encontra a solução ainda não individuada, onde o que já tem forma confronta o que ainda não tem. Cada nova camada que se deposita resolve uma tensão local, mas ao fazê-lo cria novas condições, novas superfícies de contato, novos pontos onde o processo pode continuar. O cristal é um indivíduo, insiste Simondon, "não porque possui uma forma geométrica ou um conjunto de partículas elementares, mas porque todas as suas propriedades sofrem uma variação abrupta quando passamos de uma faceta a outra."23 Ele é um feixe de relações diferenciais, não uma forma fechada. E ele nunca terminou de se individuar enquanto houver solução supersaturada ao seu redor.

Simondon propõe que, diferente do cristal, o indivíduo psíquico nunca esgota a carga de realidade pré-individual que carrega consigo. Há sempre um resíduo: tensões afetivas que não se resolveram, potenciais que nenhuma individuação particular consumiu, uma reserva de natureza associada que persiste no sujeito e que é a condição de possibilidade de individuações futuras. O sujeito, escreve Simondon, "é incompatível consigo mesmo."24 Ele é individual e mais que individual ao mesmo tempo. Essa incompatibilidade não é um problema a ser resolvido pelo retorno a alguma forma de equilíbrio, é a condição mesma de estar vivo, de poder ainda se transformar.

Quando o herói de Campbell retorna com o elixir e se torna "senhor dos dois mundos," o modelo nos pede que vejamos nisso uma realização. Simondon nos convida a ver outra coisa: um sistema descrito como se tivesse atingido o equilíbrio estável — todas as tensões resolvidas, todos os potenciais realizados, toda a energia distribuída. Se isso fosse verdade, porém, o herói estaria morto no único sentido que importa: ele não poderia mais se transformar. A "liberdade de viver" que Campbell descreve como a conquista final da jornada seria, na linguagem de Simondon, a descrição de um sistema que deixou de ser metaestável — que esgotou seus potenciais e não tem mais para onde ir.


V. O coletivo como receptáculo versus o coletivo como individuação

O retorno do herói, como vimos, não é apenas pessoal, é social. O herói volta para entregar algo. O mito, escreve Campbell, distingue dois tipos de herói: o herói do conto de fadas, que "alcança um triunfo doméstico, microcósmico," e o herói do mito propriamente dito, que "traz de volta da sua aventura os meios para a regeneração da sua sociedade como um todo."25 Heróis tribais como Moisés entregam seu dom a um povo. Heróis universais como Buda ou Jesus trazem "uma mensagem para o mundo inteiro." Em todos os casos, a direção é a mesma, do herói para o grupo, do indivíduo excepcional para a coletividade que o espera.

É uma visão poderosa. Campbell entende que o indivíduo isolado é uma ficção, que ninguém se constitui fora de uma teia de relações, linguagens, técnicas, genealogias. Na sua leitura, os ritos de passagem existem para "traduzir as crises e os feitos da vida do indivíduo em formas clássicas e impessoais," e através deles "a sociedade inteira se torna visível a si mesma como uma unidade viva imperecível," onde "gerações de indivíduos passam, como células anônimas de um corpo vivo, mas a forma sustentadora, intemporal, permanece."26 Até aqui, Simondon concordaria. A concordância para, todavia, exatamente nesse ponto, porque o que Campbell descreve como relação entre indivíduo e coletivo é, aos olhos de Simondon, a exata reprodução da lógica hilemórfica, só que transposta para o plano social.

Observemos a estrutura. A "forma sustentadora, intemporal" é a sociedade como arquétipo, o molde que precede e sobrevive aos indivíduos que passam por ela. Os indivíduos são a matéria, "células anônimas" que preenchem temporariamente uma forma que lhes é anterior e superior. O herói é aquele que, tendo descido ao fundo de si mesmo e encontrado o padrão universal, retorna para re-energizar essa forma, para devolver ao molde a sua potência de cunhagem. A sociedade, nesse modelo, não se transforma, ela se restaura. O elixir não cria algo novo, mas repõe algo que se havia degradado. A circulação de energia espiritual que Campbell descreve é, no fundo, circular: ela sai do coletivo (como crise), passa pelo herói (como jornada), e volta ao coletivo (como restauração). Nada de genuinamente novo emerge desse circuito, porque o novo exigiria que a própria forma mudasse — e a forma, por definição, é intemporal.

Simondon propõe uma ontologia do coletivo radicalmente diferente. Para ele, o coletivo não é uma forma que antecede os indivíduos e os molda, nem uma soma de indivíduos que se agregam por contrato ou por instinto. O coletivo é ele próprio um processo de individuação, aquilo que Simondon vai chamar de individuação transindividual. Essa individuação não acontece entre indivíduos já constituídos. Ela acontece através daquilo que, nos indivíduos, ainda não é individual. Como escreve Simondon: "Os seres estão ligados uns aos outros no coletivo não efetivamente como indivíduos, mas como sujeitos, isto é, como seres que contêm o pré-individual."27

A ideia merece ser desdobrada. Simondon insiste que o ser individuado, o sujeito, não é apenas individual. Ele carrega consigo uma carga de realidade pré-individual: potenciais afetivos, tensões não resolvidas, uma reserva de natureza que nenhuma individuação psíquica esgotou. Essa carga não é um defeito e nem um resíduo a ser eliminado, mas a condição de possibilidade de algo que o sujeito sozinho não pode realizar. Porque a individuação ulterior que essa carga pede "não pode se efetuar no interior do ser do sujeito; ela só pode se efetuar através desse ser e de outros seres, como coletivo transindividual."28

A emoção, nesse quadro, ocupa um lugar decisivo. Simondon dedica páginas densas a mostrar que a emoção não é nem perturbação individual, nem pressão social. Ela é o sinal de que algo pré-individual no sujeito está sendo convocado para uma individuação que só pode se completar no coletivo. "O instante essencial da emoção," escreve ele, "é a individuação do coletivo."29 Antes desse instante, a emoção é latência, conflito interno entre a realidade pré-individual e a realidade individuada no sujeito. "A emoção é como um ser incompleto que só poderá se sistematizar segundo um coletivo que irá se individuar."30 Depois desse instante, a emoção pode ser descrita funcionalmente como comportamento social. O que ela verdadeiramente é, porém, só existe no momento em que o pré-individual de vários sujeitos se individua junto, constituindo uma realidade que não pertence a nenhum deles em separado. Simondon é preciso: "a emoção não é a ação do social sobre o individual; ela também não é o ímpeto do indivíduo constituído que constituiria a relação a partir de um único termo; a emoção é o potencial que se descobre como significação ao se estruturar na individuação do coletivo."31

A diferença com Campbell é agora visível em toda a sua extensão. No modelo campbelliano, o coletivo é o ponto de partida e o ponto de chegada, mas nunca o lugar da novidade. Ele espera o herói como a plateia espera o ator, e pode acolhê-lo ou rejeitá-lo, mas não se transforma por si mesmo. O herói é o agente, a sociedade, o paciente. O dom que o herói traz é, no fundo, algo que a sociedade já possuía em forma degradada e que precisa ser restituído à sua pureza original, como o mito da idade de ouro, o paraíso perdido, a forma intemporal que se desgastou e pede renovação.

No modelo de Simondon, não há agente separado. O coletivo se individua quando os potenciais pré-individuais que os sujeitos carregam entram em ressonância interna, quando a carga de natureza não-individuada de um encontra a carga de natureza não-individuada de outro, e dessa disparação emerge uma estrutura que nenhum deles continha sozinho. Simondon chama esse processo de transdução: uma estruturação que se propaga de ponto em ponto, sem modelo prévio, criando suas próprias condições — como o cristal que cresce não porque alguém lhe impõe uma forma, mas porque as tensões do meio o produzem.

Nessa perspectiva, a ideia de um herói que retorna com um dom para restaurar o coletivo é não apenas insuficiente, é um obstáculo. Ela reforça a assimetria entre o indivíduo excepcional e o grupo passivo, e ao fazê-lo impede de pensar aquilo que, para Simondon, é o mais real e o mais fecundo na vida coletiva: o momento em que ninguém é herói e ninguém é plateia, porque o que está em jogo não é a transmissão de uma forma, mas a emergência de uma relação que ainda não existia.


VI. A informação contra o arquétipo

Resta ainda uma peça no vocabulário de Simondon que muda o quadro inteiro: a noção de informação.

A palavra é traiçoeira. No uso corrente, assim como no uso da teoria da comunicação, "informação" designa algo que se transmite, uma mensagem que sai de um emissor, percorre um canal e chega a um receptor. Simondon usa a palavra em outro sentido. Para ele, informação não é mensagem transmitida, mas singularidade que deflagra uma estruturação. Informação é aquilo que, ao atravessar um sistema metaestável, dispara uma reorganização que não estava contida em nenhum dos elementos prévios do sistema. O germe que cai na solução supersaturada e provoca a cristalização é informação, não porque "diga" algo ao líquido, mas porque sua presença singular é incompatível com o estado atual do sistema e força uma resolução. A informação, nesse sentido, não preexiste à operação que ela dispara. Ela é a "fórmula da individuação" que "não pode preexistir a essa individuação."32

Esse conceito permite reformular com precisão o que distingue a perspectiva de Simondon da de Campbell.

O arquétipo é, por definição, o que preexiste. Ele é a forma eterna que estava lá antes de qualquer herói particular, e que estará lá depois. Cada jornada heroica concreta é uma instanciação desse padrão, uma variação que confirma a regra. Quando Campbell observa que "se um ou outro dos elementos básicos do padrão arquetípico é omitido de um dado conto de fadas, lenda, ritual ou mito, ele estará de algum modo implícito,"33 está dizendo algo muito forte, está afirmando que o padrão é tão determinante que mesmo a sua ausência o confirma. A omissão "pode falar volumes sobre a história e a patologia do exemplo,"34 vale dizer, o desvio em relação ao padrão é sintoma, não criação.

A informação simondiana funciona na lógica inversa. Ela é irredutível a um padrão prévio porque ela é a singularidade que produz a estrutura. Não é o padrão que gera as variações; é a singularidade — local, datada, irrepetível — que deflagra um processo cujo resultado não poderia ter sido deduzido de nenhum modelo anterior. Cada ato de individuação tem, nas palavras de Simondon, "uma existência singular de uma forma particular para cada ato de fabricação."35 A ênfase recai inteiramente sobre o cada. O que faz desta individuação esta individuação não é o padrão que ela repete, mas a singularidade que ela resolve, e essa singularidade, por definição, é o que o padrão não pode conter.

A oposição entre arquétipo e informação é a oposição entre duas ontologias. Na ontologia do arquétipo, a realidade é repetição com variação acidental; o princípio é a forma, e a singularidade é ruído. Na ontologia da informação, a realidade é individuação sem modelo prévio; o princípio é a singularidade, e o padrão, quando aparece, é um efeito retrospectivo, uma regularidade observada depois do fato, não uma causa que o produziu.


VII. O que está em jogo: consequências para o pensamento

O modelo arquetípico não ficou confinado aos departamentos de mitologia comparada. Ele se tornou uma das linguagens dominantes com que a cultura contemporânea fala sobre transformação pessoal, sentido da vida e pertencimento coletivo. E sabemos que a linguagem não é neutra, ela determina o que pode ser dito e o que permanece impensável. As consequências de adotar consciente ou inconscientemente a ontologia do arquétipo se distribuem por pelo menos três planos.

No nível mais fundamental, a divergência entre Campbell e Simondon não é uma questão de preferência entre dois modelos narrativos. É uma divergência sobre o estatuto do devir. O modelo de Campbell pressupõe que a estrutura é anterior ao processo: o padrão existe antes de qualquer herói concreto, e a jornada particular é uma realização mais ou menos bem-sucedida desse padrão. A singularidade é subordinada à forma. Simondon inverte essa relação. A singularidade é o princípio, e a forma é o resultado provisório de uma operação que poderia ter se resolvido de outro modo. A consequência filosófica é profunda. Na ontologia do arquétipo, conhecer é reconhecer — reconhecer o padrão sob as variações. Na ontologia da individuação, conhecer é acompanhar uma operação que produz algo irredutível ao já conhecido. São duas relações diferentes com a novidade. Para o pensamento arquetípico, o genuinamente novo é impossível, porque tudo o que surge é variação de algo que já existia. Para o pensamento da individuação, o novo é a realidade mesma do processo, é aquilo que acontece quando uma singularidade atravessa um campo metaestável e o reorganiza de maneira imprevisível.

Essa divergência se projeta também sobre o modo como pensamos a ação coletiva. Campbell apresenta o seu herói como figura universal. A universalidade, contudo, quando examinada de perto, tem uma fisionomia bastante particular. O herói do monomito é, estruturalmente, um indivíduo excepcional que se separa do grupo, enfrenta uma provação solitária e retorna com um dom para uma coletividade que o espera. Esse arco reproduz com notável fidelidade uma concepção muito específica de agência histórica, que é a do grande homem que, por força da sua singularidade, salva ou renova uma comunidade que não poderia salvar-se ou renovar-se por si mesma. A operação que Campbell realiza sobre a diversidade mitológica é precisamente a que Simondon identificaria como arquetípica: extrair dos mil casos a "tendência central" e tratar as diferenças como flutuações acidentais. As mil faces são, no fundo, uma só. Quando culturas radicalmente diferentes, com cosmologias, estruturas de parentesco, relações com o território e modos de subjetivação irredutíveis uns aos outros são subsumidas sob um "plano essencial" que "varia muito pouco,"36 o que se perde é exatamente aquilo que as constitui como processos de individuação distintos. O disparate entre elas — a incompatibilidade que não se deixa harmonizar — não é ruído a ser filtrado; é, para Simondon, a matéria mesma da individuação. Subsumir essa diferença sob um arquétipo comum não é descobrir uma verdade profunda, é impor uma forma sobre uma realidade que resiste a ela.

Há aqui uma ironia. Campbell conclui The Hero with a Thousand Faces lamentando que o mundo moderno perdeu os seus mitos unificadores e que os indivíduos estão fragmentados, incapazes de encontrar a forma sustentadora que os integre. A solução que ele propõe é, em essência, restaurativa: reencontrar, por baixo da superfície fragmentada, a unidade arquetípica que sempre esteve lá. Simondon diagnosticaria essa solução como parte do problema. Se o mundo moderno é um sistema em desequilíbrio, a resposta não está em restaurar uma forma anterior, mas em pensar a individuação que esse desequilíbrio torna possível. Não há paraíso a restaurar porque não houve paraíso. Houve individuações anteriores, com seus próprios potenciais e suas próprias limitações, e haverá individuações futuras que não podem ser deduzidas das anteriores. A nostalgia do arquétipo é, nesse sentido, o obstáculo mais sutil ao pensamento da novidade.

As consequências se estendem, por fim, ao próprio ato de narrar. O modelo de Campbell colonizou de tal maneira a imaginação narrativa contemporânea — especialmente no cinema, na publicidade e nas indústrias do desenvolvimento pessoal — que se tornou quase impossível pensar a transformação fora do seu vocabulário. A linguagem do "chamado," da "provação," do "mentor," da "morte e renascimento simbólicas" se naturalizou a ponto de parecer não uma linguagem entre outras, mas a gramática mesma da experiência. O risco não está no modelo em si, mas na sua naturalização. Quando o padrão se torna invisível, quando deixa de ser reconhecido como uma escolha e passa a ser vivido como a estrutura da realidade, ele faz exatamente o que Simondon diagnosticou no esquema hilemórfico: esconde a zona obscura, apaga a singularidade, apresenta o resultado como inevitável.

A crítica de Simondon não condena a estrutura narrativa enquanto tal — condena a sua naturalização. Convida, no entanto, a prestar atenção a outro lugar. Que tensões uma narrativa carrega? Que incompatibilidades sustentam a existência de seus personagens sem se resolverem? Que individuações aconteceram e que potenciais ficaram por individuar? As histórias que emergem dessas perguntas não têm a elegância circular do monomito. Elas são, provavelmente, mais irregulares, mais inacabadas, mais difíceis de reduzir a um esquema. São, por isso mesmo, mais fiéis àquilo que Simondon chamaria de realidade da individuação: processos que não começaram com um chamado, que não terminam com um retorno, e que carregam sempre mais do que aquilo que qualquer narrativa consegue capturar.


Considerações Finais: Da Forma Arquetípica à Gênese da Individuação

Voltemos à oficina de cunhagem com que começamos. Um carimbo de aço, uma tableta de metal maleável, um golpe. Dessa cena técnica nasceu a ideia de que o real se organiza pela repetição de uma forma primeira sobre uma matéria que a recebe. Vinte e cinco séculos depois, essa ideia continua operando como estrutura invisível que organiza a maneira como pensamos a vida, a transformação e o pertencimento. O modelo de Campbell é talvez uma de suas expressões mais eloquentes: a promessa de que há um padrão, de que o padrão é universal, e de que viver bem é percorrê-lo até o fim.

Simondon não propõe substituir esse modelo por outro, que seria apenas trocar um molde por outro. Propõe algo mais difícil: abandonar a lógica do molde. Pensar a individuação não como o preenchimento de uma forma, mas como uma operação sem modelo prévio, disparada por singularidades que não podem ser deduzidas de nenhum padrão, sustentada por tensões que não pedem resolução final, e aberta a resultados que ninguém, nem o próprio sujeito que se individua, poderia ter antecipado.

Isso significa que não há nada a aprender com os mitos? Evidentemente não. Significa, porém, que o que há para aprender talvez não esteja onde Campbell supõe. Não está no padrão que se repete, está naquilo que, em cada mito, resiste ao padrão. Na torção singular que esta cultura imprimiu a este tema. Na tensão que este narrador não soube resolver e que por isso ficou viva na história como uma fissura, uma estranheza, um incômodo que nenhuma interpretação arquetípica consegue domesticar. Está, em suma, naquilo que Simondon chamaria de informação: a singularidade que não preexiste ao processo e que, por isso mesmo, é o verdadeiro princípio daquilo que surge.

Simondon oferece algo que Campbell, com toda a sua generosidade, não pode oferecer: a possibilidade de que o inacabamento seja não um fracasso, mas a condição mesma de estar vivo. De que as tensões que carregamos — entre o que somos e o que ainda não encontrou forma em nós, entre a nossa individualidade constituída e a carga de realidade pré-individual que persiste — não sejam problemas a resolver, mas potenciais a habitar. De que a relação genuína com os outros não nasça da partilha de um mesmo arquétipo, mas da ressonância entre aquilo que, em cada um de nós, ainda não é individual e não pode se individuar sozinho.

Não há elixir no fim desse caminho, porque não há fim. Há um processo em curso, mais antigo do que qualquer sujeito e mais duradouro do que qualquer indivíduo, que se propaga de ponto em ponto como uma cristalização que avança pelas bordas de si mesma. Cada faceta que se forma é real, é consistente, é nova, mas não é a última. O cristal não retorna. Ele continua crescendo enquanto houver, ao seu redor, uma solução carregada de potenciais.

Talvez a melhor coisa que se possa fazer com o herói de mil faces seja devolvê-lo ao que ele é: não uma descoberta sobre a estrutura da realidade, mas um mito entre outros — poderoso, belo, e parcial como todos os mitos. E então, libertos da obrigação de encontrar nele a nossa forma, prestar atenção ao que ele não consegue dizer: àquilo que, na nossa vida e nas nossas relações, ainda não tem nome, ainda não tem padrão, e por isso mesmo ainda pode vir a ser.


Notas

1 CAMPBELL, 2020, Prólogo. "Whether the hero be ridiculous or sublime, Greek or barbarian, gentile or Jew, his journey varies little in essential plan."

2 SIMONDON, 2020, p. 678. "The Archetype — from ἀρχή [arché], meaning 'origin,' and τύπος [túpos], meaning 'imprint' — is the first mode. This word designates the stamp by means of which money can be minted, what we call a hallmark today. The τύπος is the imprint and also the strike: with a piece of engraved steel, characters can be stamped onto a tablet of precious metal, and this archetype can yield the same figure, the same configuration with this deformable matter of the metal tablet."

3 O termo grego σύνολον (súnolon), literalmente "o todo-junto" ou "o composto," designa em Aristóteles a unidade concreta e indissociável de forma (morphé) e matéria (hýle) que constitui cada ser individual existente. Não se trata de uma mera soma ou justaposição, mas do ser individual enquanto totalidade efetiva — este cavalo, esta mesa, este homem — em que forma e matéria não existem separadamente. Cf. ARISTÓTELES, Metafísica, VII (Z), 1029a–1035b.

4 SIMONDON, 2020, p. 679. Simondon observa que o pensamento medieval e renascentista "did not find a perfect correlation, a true metaxú or middle term that could completely unite the archetypal form and the hylomorphic form."

5 SIMONDON, 2020, p. 30. "The hylomorphic schema corresponds to the knowledge of someone who remains outside the workshop and considers nothing but what enters and exits it."

6 SIMONDON, 2020, p. 30. "in order to know the true hylomorphic relation, it is not even enough to enter the workshop and work with the craftsman: we would have to penetrate into the mold itself in order to follow the operation of form-taking on the different scales of magnitude of physical reality."

7 SIMONDON, 2020, p. 47. "the existence of a middle and intermediate zone between form and matter (the zone of the singularities that are the initiators of the individual in the operation of individuation), certainly must be considered an essential feature of the operation of individuation." Em outro trecho central, Simondon é ainda mais direto: "The hylomorphic schema includes and accepts a dark zone, which is precisely the central operational zone." (SIMONDON, 2020, p. 351)

8 SIMONDON, 2020, p. 29. "the energetic condition is essential, and it is not contributed by the form alone; the whole system is the center of potential energy precisely because form-taking is an in-depth operation within the whole mass."

9 SIMONDON, 2020, p. 43. A passagem completa diz que "fatigue intervenes, perception changes — which amounts to a singular existence of a particular form for each act of fabrication."

10 CAMPBELL, 2020, Prólogo. "The changes rung on the simple scale of the monomyth defy description."

11 CAMPBELL, 2020, Prólogo. "Dream is the personalized myth, myth the depersonalized dream; both myth and dream are symbolic in the same general way of the dynamics of the psyche."

12 CAMPBELL, 2020, Prólogo. "in myth the problems and solutions shown are directly valid for all mankind."

13 CAMPBELL, 2020, Parte II, Cap. 1. "The hero is the one who, while still alive, knows and represents the claims of the superconsciousness which throughout creation is more or less unconscious."

14 CAMPBELL, 2020, Prólogo. "The archetypes to be discovered and assimilated are precisely those that have inspired, throughout the annals of human culture, the basic images of ritual, mythology, and vision."

15 SIMONDON, 2020, p. 273. "Psychoanalysis has noted that there is indeed an unconscious in the individual. But it considered this unconscious as a complete psyche that is somewhat copied from a consciousness that can be grasped."

16 Simondon define a subconsciência afetivo-emotiva como a camada relacional que se situa "no limite entre a consciência e o inconsciente," sendo "essencialmente afetividade e emotividade." Ela constitui "o centro da individualidade" e suas modificações são "as modificações do indivíduo." (SIMONDON, 2020, pp. 273–274)

17 SIMONDON, 2020, p. 273. "The intimacy of the individual should not be sought at the level of pure consciousness or that of organic unconsciousness; it should be sought at the level of affectivo-emotive subconsciousness."

18 SIMONDON, 2020, p. 355. A formulação completa diz que a emoção "indicates to the subject that it is more than the individuated being and that it contains the energy for a further individuation."

19 A realidade pré-individual é, para Simondon, a carga de natureza não individuada que o sujeito carrega consigo após a primeira individuação e que constitui a condição de possibilidade de individuações futuras. (SIMONDON, 2020, p. 9)

20 SIMONDON, 2020, p. 273. "the unconscious representative elements are not rare but summary, barely sketched out, and generally incapable of veritable invention and progress: they remain fairly crude stereotypes that lack representative reality."

21 CAMPBELL, 2020, Parte I, Prólogo. "The return and reintegration with society, which is indispensable to the continuous circulation of spiritual energy into the world, and which, from the standpoint of the community, is the justification of the long retreat."

22 CAMPBELL, 2020, Parte I, Cap. III, "Freedom to Live." "The goal of the myth is to dispel the need for such life ignorance by effecting a reconciliation of the individual consciousness with the universal will."

23 SIMONDON, 2020, pp. 264–265. "A crystal is an individual not because it possesses a geometrical form or an ensemble of elementary particles, but because all of its (optical, thermal, elastic, electrical, piezo-electrical) properties undergo an abrupt variation when we pass from one facet to another."

24 SIMONDON, 2020, p. 280. A formulação completa diz que "the subject is individual and other than individual; it is incompatible with itself."

25 CAMPBELL, 2020, Prólogo. "the hero of myth a world-historical, macrocosmic triumph [...] the latter brings back from his adventure the means for the regeneration of his society as a whole."

26 CAMPBELL, 2020, Parte II, Cap. 1. "The tribal ceremonies of birth, initiation, marriage, burial, installation, and so forth, serve to translate the individual's life-crises and life-deeds into classic, impersonal forms [...] the whole society becomes visible to itself as an imperishable living unit. Generations of individuals pass, like anonymous cells from a living body; but the sustaining, timeless form remains."

27 SIMONDON, 2020, p. 348. "Beings are linked to one another in the collective not actually as individuals, but as subjects, i.e. as beings that contain the pre-individual."

28 SIMONDON, 2020, p. 355. A formulação diz que a individuação ulterior "cannot take place within the being of the subject; it can only take place through this being of the subject and through other beings as the transindividual collective."

29 SIMONDON, 2020, p. 355. "The essential instant of emotion is the individuation of the collective."

30 SIMONDON, 2020, p. 354. "emotion is like an incomplete being that will only be able to systematize itself according to a collective that will individuate."

31 SIMONDON, 2020, p. 354. "Emotion is not the action of the social on what is individual; it is also not the momentum of the constituted individual that would constitute the relation starting from a single term; emotion is the potential that is discovered as signification by structuring itself within the individuation of the collective."

32 A ideia central é que "information is the formula of individuation, a formula that cannot preexist this individuation." Cf. SIMONDON, 2020, Introdução e passim.

33 CAMPBELL, 2020, Prólogo. "If one or another of the basic elements of the archetypal pattern is omitted from a given fairy tale, legend, ritual, or myth, it is bound to be somehow or other implied."

34 CAMPBELL, 2020, Prólogo. "the omission itself can speak volumes for the history and pathology of the example."

35 SIMONDON, 2020, p. 43. Cf. nota 9.

36 CAMPBELL, 2020, Prólogo. Cf. nota 1.


Bibliografia

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Giovanni Reale. São Paulo: Loyola, 2002. 3 v.

CAMPBELL, Joseph. The Hero with a Thousand Faces. The Collected Works of Joseph Campbell. Nova York: Joseph Campbell Foundation, 2020.

SIMONDON, Gilbert. Individuation in Light of Notions of Form and Information. Tradução de Taylor Adkins. Posthumanities 57. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2020.