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E se as leis da física pudessem simplesmente parar de funcionar amanhã?

2026-04-08

Imagine que você acorda amanhã cedo, joga uma maçã para o ar, e ela não cai. Não porque tem um truque, não porque você está num filme de ficção científica, mas porque a gravidade simplesmente decidiu ser diferente naquela manhã. Nenhum motivo. Nenhuma explicação. As regras do universo mudaram.

As leis da física são eternas, necessárias, gravadas em algum lugar fora do tempo?

Quentin Meillassoux é um filósofo francês contemporâneo que dedicou boa parte da sua carreira a essa pergunta, e a resposta que ele dá vai contra o que a maioria de nós intuitivamente acredita: as leis da natureza não são necessárias. Elas poderiam ser diferentes. E não existe nenhuma garantia de que continuarão sendo o que são.

Antes de descartarmos isso como loucura, vale a pena ouvir o argumento. Porque ele é mais sólido do que parece.

O problema que ninguém conseguiu resolver

Tudo começa com David Hume, um filósofo escocês do século XVIII que fez uma pergunta aparentemente simples: por que você acredita que o sol vai nascer amanhã?

A resposta óbvia é: porque nasceu todos os dias até hoje. Mas aí está o problema. Você está usando o passado para garantir o futuro, e isso nunca é uma garantia lógica de verdade. Não importa quantas vezes algo aconteceu, isso não prova que vai continuar acontecendo.

Todo mundo concorda com essa parte. O filósofo Karl Popper, por exemplo, deu uma resposta famosa: a ciência não afirma leis eternas e certas, ela apenas propõe hipóteses que funcionam até serem refutadas. Se amanhã a gravidade mudar, a nossa teoria sobre gravidade será descartada e faremos uma nova. Ciência funciona assim, provisoriamente, e tudo bem.

Mas Meillassoux percebe que Popper escorregou uma premissa importante para dentro do argumento sem avisar. Popper assume que, nas mesmas condições, os resultados serão sempre os mesmos. O que pode mudar, segundo ele, é nossa ignorância sobre quais são exatamente essas condições.

Hume estava perguntando algo muito mais perturbador. E se, nas mesmas condições, os resultados fossem diferentes? Não porque ignoramos alguma variável escondida, mas porque as próprias leis do universo são fundamentalmente instáveis?

Pense assim: e se hoje, nesta mesma sala, com a mesma temperatura, a mesma pressão, o mesmo tudo, você jogasse uma bola para cima e ela caísse normalmente, mas amanhã, em condições idênticas, ela flutuasse? Sem motivo. Sem causa. As regras simplesmente são outras.

Esse é o verdadeiro problema de Hume, e ele não é sobre o nosso conhecimento. É sobre como o universo funciona, ou melhor, sobre se o universo é obrigado a funcionar de alguma forma específica.

As três tentativas de resolver o problema

Ao longo da história, a filosofia produziu basicamente três tipos de resposta para essa questão.

A primeira resposta é a religiosa ou metafísica, e o maior nome aqui é Leibniz. A lógica é simples: Deus existe, Deus é perfeitamente racional, e portanto Deus não vai mudar as regras do jogo de um dia para o outro. As leis da natureza são estáveis porque há uma inteligência necessária e eterna por trás delas. Se você aceita essa premissa, o problema desaparece. Mas se você não aceita, ou se quer uma resposta que não dependa de um salto de fé, precisa procurar outra coisa.

A segunda resposta é a do próprio Hume, e é honesta na sua modéstia: simplesmente não sabemos se as leis são necessárias ou não, e provavelmente nunca vamos saber. O que sabemos é que nosso cérebro, por hábito, começa a esperar que o que aconteceu antes vai continuar acontecendo. A ideia de "lei natural" é menos uma descoberta sobre o universo e mais um padrão que nossa mente projeta sobre a experiência.

A terceira resposta é a de Kant, o filósofo alemão que revolucionou a filosofia no século XVIII, e é a mais sofisticada das três. Kant não tenta provar diretamente que as leis são necessárias. Em vez disso, ele mostra que se as leis fossem contingentes, o resultado seria absurdo.

O raciocínio é o seguinte: se as leis podem mudar, então é provável que mudem com alguma frequência. Mas se mudassem frequentemente, não haveria experiência consciente possível. Para existir experiência, é preciso que as coisas tenham uma certa regularidade ao longo do tempo. Se de repente os átomos parassem de se atrair, se a luz parasse de se propagar, se o tempo parasse de fluir de forma uniforme, não haveria nem um sujeito consciente para perceber isso. Seria caos puro. E como claramente há experiência, as leis têm que ser necessárias.

É um argumento inteligente. E foi aceito por muita gente por muito tempo. Mas Meillassoux encontrou um furo nele.

O furo no argumento de Kant

O argumento de Kant depende de um passo que parece óbvio mas não é: se as leis podem mudar, então provavelmente mudam com frequência.

Esse passo é, na verdade, um cálculo de probabilidade disfarçado. Para dizer que algo é provável, você precisa ter algum espaço de possibilidades definido. Por exemplo: se você joga um dado, a probabilidade de sair o número 6 é de 1 em 6, porque há exatamente 6 resultados possíveis. O cálculo funciona porque o conjunto de possibilidades é finito e conhecido.

Mas e se você tentasse calcular a probabilidade de as leis naturais mudarem? Para isso, você precisaria dividir as leis atuais pelo conjunto total de todas as leis possíveis. Quantas leis alternativas poderiam existir? Quantos universos com regras diferentes são concebíveis?

A resposta, que vem da matemática dos conjuntos, é que esse conjunto não tem um tamanho definido. Não existe um "conjunto de tudo que é possível" que funcione como denominador. É como tentar calcular quanto é 1 dividido por infinito, mas ainda pior: não é nem infinito, é indefinido.

E se não existe denominador, o cálculo de probabilidade simplesmente não pode ser feito. A pergunta "qual é a probabilidade de as leis mudarem?" não tem resposta, não porque a resposta é muito pequena, mas porque a pergunta não faz sentido matemático.

Com isso, o argumento de Kant desmorona. As leis podem ser contingentes sem que isso signifique que mudam frequentemente. As leis poderiam mudar amanhã ou poderiam nunca mudar. Não há como calcular. Não há como saber.

Então o que Meillassoux está propondo?

A posição de Meillassoux é o que ele chama de Princípio de Factualidade, e ela pode ser resumida numa frase: tudo é contingente, exceto a própria contingência.

Dito de outro jeito: nada no universo é necessário, nenhuma lei, nenhuma constante, nenhuma regra. Tudo poderia ser diferente. Mas a única coisa que não pode ser diferente é exatamente o fato de que tudo é assim: sem fundamento necessário, sem razão última.

É quase um paradoxo, mas é logicamente consistente. Se você perguntar "mas por que tudo é contingente?", a resposta é: porque isso é simplesmente como as coisas são. Não há um motivo por trás. O universo não tem razão de ser como é. As leis da física existem, mas elas não precisavam existir nem precisam continuar assim.

Um filósofo contemporâneo de Meillassoux, Graham Harman, chamou essa posição de "ocasionalismo sem Deus". Meillassoux pega a intuição de que os instantes do tempo são, no fundo, desconectados entre si, sem garantia de continuidade, e simplesmente remove Deus da equação. Nada garante que o próximo instante vai se parecer com o anterior. Nada e ninguém.

Mas se tudo pode mudar, por que nada muda?

Essa é a pergunta óbvia, e Meillassoux tem uma resposta para ela: simplesmente porque não há razão para mudar, da mesma forma que não há razão para permanecer. As leis da natureza são estáveis empiricamente, ou seja, nós nunca as vimos mudar. Mas isso não significa que são estáveis por necessidade. É um fato bruto, sem explicação.

Meillassoux usa a ficção científica para ilustrar essa diferença. Numa história de ficção científica clássica, as leis da natureza continuam as mesmas; o que muda é a tecnologia. Numa história de ficção "extra-científica", as leis mudam tanto que a própria ciência se torna impossível. Meillassoux sugere, provocativamente, que nosso mundo pode ser do segundo tipo, e simplesmente não percebemos porque as leis, por enquanto, não mudaram.

A segunda parte do argumento: o que existia antes de existirmos?

Os cientistas afirmam que o Big Bang aconteceu há aproximadamente 13,8 bilhões de anos. Isso é muito antes de qualquer forma de vida, muito antes de qualquer consciência, muito antes de qualquer sujeito que pudesse observar ou conhecer qualquer coisa. E, no entanto, nós afirmamos saber disso. Como?

Meillassoux chama de "ancestral" qualquer coisa que existiu antes do surgimento de sujeitos conscientes, e de "archifóssil" os indícios físicos que nos permitem reconstruir essa existência. A radiação cósmica de fundo, por exemplo, é um archifóssil: é um sinal que o universo emite hoje e que nos permite inferir o que aconteceu no seu começo.

Toda a filosofia moderna, desde Kant, parte de um pressuposto: nunca conhecemos o mundo "em si mesmo", independente de nós. Sempre conhecemos o mundo para nós, filtrado pela nossa percepção, pelas nossas categorias mentais, pelo nosso aparato cognitivo. Mas e o Big Bang? Ele aconteceu antes de qualquer observador. Dizer que ele existia "para alguém" não faz sentido, porque não havia ninguém.

Meillassoux defende que a resposta correta é a mais simples e a mais direta: o universo existia antes de nós, de verdade, independente de nós, e nós podemos conhecê-lo porque a matemática nos dá acesso a estruturas que são objetivas, que não dependem de um sujeito para existir. Ele chama essa posição de materialismo especulativo.

Por que isso importa?

Meillassoux está tentando responder a uma questão que a filosofia moderna, de certo modo, decidiu evitar: existe uma realidade lá fora, independente de nós, que podemos genuinamente conhecer?

A resposta que dominou a filosofia ocidental desde Kant é, em diferentes variações: não exatamente. Sempre conhecemos o mundo a partir de dentro de alguma perspectiva. Nunca chegamos à "coisa em si". Isso foi libertador em muitos sentidos, porque revelou o quanto nossa visão do mundo é construída, histórica, contingente. Mas também criou um problema: se nunca saímos de dentro das nossas perspectivas, como podemos afirmar que o universo tem 13,8 bilhões de anos?

Meillassoux quer recuperar a capacidade de fazer afirmações absolutas sobre uma realidade independente, mas sem fingir que as questões levantadas por Kant nunca existiram. Quer reabrir a porta para o absoluto sem voltar à ingenuidade pré-filosófica.

O resultado é uma visão de mundo estranha: um universo que é completamente real, completamente independente de nós, mas que não tem nenhuma razão necessária de ser como é. Um universo que poderia mudar completamente a qualquer momento, e que, por motivo nenhum, continua sendo o que é.