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Substância negra

Tomografia cerebral
Exame de imagem cerebral

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Longe da correria cotidiana, de férias, algo que provavelmente já estava lá há algum tempo finalmente encontrou espaço para se fazer notar. Os sintomas foram se intensificando ao longo dos meses seguintes, acompanhados de uma melancolia difusa que eu não sabia bem como nomear. Passei por vários médicos até que um me deu o diagnóstico: Parkinson. A incidência antes dos cinquenta anos é baixa — uns quatro por cento.1 Eu era um deles. O Parkinson resulta da degeneração dos neurônios dopaminérgicos da substância negra, a região do cérebro responsável pelo controle do movimento, levando aos sintomas clássicos de tremor, rigidez e lentidão. O tratamento deveria começar no dia seguinte, confirmado pelo exame de imagem — aquelas estranhas figuras que não me diziam muito e mais pareciam ter chegado de uma sonda espacial. O laudo era conclusivo e a evolução da doença, impossível de prever. Após algumas semanas comecei a notar os primeiros bons resultados do tratamento, e as perguntas que eu não sabia nem como formular começaram a aparecer.

Essa condição me colocou diante de uma pergunta que a medicina responde apenas parcialmente. O que está acontecendo, afinal, quando um corpo "funciona"?

O neurocientista António Damásio parte de um ponto que parece banal: o corpo não é um sistema em repouso. Ele está o tempo todo engajado numa tarefa silenciosa e incessante, a de manter-se vivo. Esse processo chama-se homeostase e consiste na regulação contínua de todos os parâmetros internos do organismo: a temperatura, o ritmo cardíaco, os níveis hormonais, o equilíbrio químico. Não pensamos nisso, não precisamos pensar. O corpo simplesmente faz.

Damásio vai chamar de "sentimento" os sinais desse processo de regulação, os mecanismos que rastreiam o estado contínuo do organismo. É importante salientar que há aqui uma distinção estrutural entre sentimento e emoção. A emoção é pública: expressa-se no corpo e no rosto, é visível para outros (a etimologia de "emoção" remete a movimento). O sentimento, ao contrário, é uma experiência interna e estritamente privada. Sentir fome, bem-estar ou tristeza é algo que apenas o indivíduo sabe, a menos que decida comunicar.2

Os sentimentos de caráter negativo funcionam como alertas que mobilizam o organismo a corrigir o que ameaça seu equilíbrio. Os de caráter positivo indicam que o organismo está bem e criam as condições ótimas para que ele se volte ao mundo, experimente, explore seu potencial. São eles que liberam o organismo da postura defensiva e de alerta, permitindo que direcione sua energia para identificar recursos úteis e promover seu próprio crescimento.

Viver com Parkinson é, em certa medida, conviver com o corpo nessa postura defensiva e de alerta em modo on de maneira mais intensa e por períodos mais longos. A impressão que dá é a de um organismo que tenta se regular, mas a fonte do desequilíbrio persiste. E quando esses sinais dominam o campo, o espaço para os sentimentos positivos encolhe. Explorar o mundo, apreciar o ambiente ao redor, aquilo que Damásio descreve como sinal de um organismo em equilíbrio, continua possível, mas exige um esforço a mais. O caminho não está fechado, mas ficou mais longo e mais cansativo.

É a partir dessa compreensão dos sentimentos que Damásio faz sua aposta mais radical: a consciência não emerge das funções cognitivas superiores — percepção refinada, linguagem, raciocínio — mas dos sentimentos homeostáticos. Para compreender por que, é preciso olhar para a estrutura dos próprios neurônios. Os circuitos que usamos para raciocinar, falar e planejar são altamente mielinizados: a mielina age como isolante elétrico, tornando a transmissão de sinais rápida, precisa, quase digital. Os neurônios responsáveis pelos sentimentos homeostáticos, ao contrário, possuem pouca ou nenhuma mielina — são evolutivamente mais antigos, operam de modo analógico, lento e modulado, e estão em contato direto com as vísceras e os tecidos do organismo. Quando essas regiões primitivas são danificadas, o resultado é o coma. Damásio inverte assim uma hierarquia que tendemos a dar por certa: a consciência não é uma faculdade do espírito, não nasceu para que pudéssemos fazer filosofia, arte ou ciência. É um instrumento de regulação da vida. O que nos permite essas conquistas são as capacidades cognitivas que se erguem sobre a plataforma que ela oferece. O pensamento depende do sentimento, e o sentimento depende do corpo que o gera.3

O que Damásio descreve em linguagem neurocientífica encontra um paralelo direto no que Espinosa chamou de conatus. Em sua Ética, publicada postumamente em 1677, Espinosa afirma que cada coisa esforça-se, tanto quanto pode, por perseverar no seu ser. Esse esforço não é uma escolha deliberada nem um impulso vitalista: é a necessidade ontológica que define cada modo singular de existência. Diferentemente do voluntarismo cartesiano, que separa mente e corpo em substâncias distintas e atribui ao sujeito uma vontade soberana sobre si mesmo, em Espinosa o esforço de perseverar é expressão de uma única substância percebida sob dois atributos simultâneos. Um corpo consciente de si é um corpo que afirma sua própria existência. Não porque escolhe, mas porque é essa a sua natureza.4

Entretanto, uma das ideias mais influentes do pensamento ocidental moderno aponta na direção oposta. Para Sigmund Freud, o organismo não é apenas aquilo que quer continuar vivo: é também o lugar de uma pulsão que deseja o contrário. Em Além do Princípio do Prazer, publicado em 1920, ele formula o que chamou de pulsão de morte: a hipótese de que existe no ser vivo um impulso fundamental de retornar ao estado inorgânico, de reduzir toda tensão ao zero, de cessar o esforço de existir. "O objetivo de toda vida é a morte", escreve ele. Não se trata de desejo de sofrimento. Trata-se da lógica do princípio do prazer levada ao extremo absoluto: se prazer é redução de tensão, a tensão zero, o repouso completo, o inorgânico, seria o prazer máximo. Uma hipótese perturbadora, que Freud apresenta com cautela, reconhecendo seu caráter especulativo, mas que sugere que a vida carrega em si um impulso contra si mesma.5

Temos aqui visões radicalmente diferentes sobre o que anima um organismo vivo. Para Damásio, o organismo é constituído por um impulso incessante de se manter, de regular, de perseverar. Para Espinosa, esse impulso é a própria essência de tudo que existe. Os dois descrevem um universo em que a vida é, por natureza, afirmação. Freud introduz uma sombra nesse quadro: a hipótese de que por baixo do esforço de viver existe um impulso mais antigo e mais fundamental que aponta para a dissolução. Eros e Thanatos coexistem no mesmo organismo, em tensão permanente. Damásio e Espinosa não negam que o organismo padece, sofre, se desgasta, mas recusam a ideia de que esse desgaste seja o destino desejado. O que há, para os dois, é um organismo que quer continuar sendo o que é, e que sente como dor tudo aquilo que o ameaça.

Vale, porém, examinar a pulsão de morte por outro ângulo, sem abandoná-la apressadamente. A individualidade tem um custo. Ser um "eu" significa estar recortado do resto: ter fronteiras, carregar história própria, estar sempre confinado a um único ponto de vista sobre a experiência. O ego, na psicanálise, é precisamente o que traça essa linha: aqui termino eu, ali começa o outro. Essa separação é funcional, mas produz uma espécie de tensão crônica. A dissolução temporária dessa fronteira, no orgasmo, no transe coletivo, na experiência estética intensa, no sono, funciona como alívio dessa tensão. Freud viu esse fenômeno no "sentimento oceânico" e procurou explicá-lo como regressão a um estado pré-egoico. A questão que fica em aberto é se essa interpretação esgota o que o fenômeno comporta, ou se o desejo de dissolução das fronteiras do eu carrega algo que a linguagem da morte captura apenas em parte: não um impulso para o fim, mas um impulso para a expansão, para uma forma de existência sem contorno.6

Espinosa oferece uma forma de entender o mecanismo da repetição sem recorrer à pulsão de morte. Para ele, o que o corpo repete não é fruto de um impulso autodestrutivo: é o resultado necessário do que ele viveu. O hábito é a maneira como o corpo organiza suas afecções na ordem comum da Natureza. Cada encontro deixa uma marca, cada afecção inscreve uma tendência. Como escreve Marilena Chauí, comentando a Ética: "é necessário que a simultaneidade e repetição de imagens se grave no corpo e que, na presença de uma delas, a outra se atualize."7 O corpo não repete porque quer sofrer. Repete porque foi assim constituído por tudo que o afetou. Essa necessidade, porém, não é um destino fechado. A razão pode reordenar essas afecções, não para apagar o que ficou gravado, mas para compreendê-lo. E ao compreender, mudar-lhe o sentido e a força.

Mas o que é, afinal, um corpo? Não o corpo que aparece no laudo — mensurável, localizável, redutível a regiões e funções. Há outro corpo, que a fenomenologia tenta descrever sem objetificar: um corpo que não é objeto nem sujeito, mas o lugar onde essa distinção perde sentido. Um corpo que não está no mundo como uma coisa está num espaço — que habita o mundo, que o percebe antes de refleti-lo, que age antes de decidir. O corpo como veículo do ser no mundo, nas palavras de Merleau-Ponty: "ter um corpo é, para um ser vivo, juntar-se a um meio definido, confundir-se com certos projetos e empenhar-se continuamente neles."

A neuromelanina que escurece a substância negra é um pigmento que se acumula ao longo de toda uma vida — sedimento químico de tudo que o organismo precisou processar. Há algo nessa imagem que ressoa com o que a fenomenologia chama de esquema corporal: uma memória de engajamentos, uma sedimentação de modos de agir e de sentir que definem como cada um se coloca no mundo. Quando o corpo muda por doença, esse esquema não desaparece de imediato. Merleau-Ponty descreveu isso no exemplo do membro fantasma: quem perde um braço continua sentindo dor nele, continua tentando usá-lo. O corpo lembra gestos que já não pode fazer. Algo semelhante acontece com qualquer alteração profunda na relação do corpo com o mundo — o esquema sedimentado resiste, insiste, precisa ser lentamente renegociado. Não pela consciência, mas pelo próprio corpo, no decurso do tempo.


Notas

1 Parkinson's Foundation. Statistics. Disponível em: https://www.parkinson.org/understanding-parkinsons/statistics

2 António Damásio e Hanna Damásio, "Sensing, Feeling and Consciousness", Philosophical Transactions of the Royal Society B, 379 (2024), 20230243. A distinção entre sentimento e emoção é nuclear na obra de Damásio desde O Erro de Descartes (1994); é retomada e aprofundada em A Estranha Ordem das Coisas (2018).

3 DAMASIO, A.; DAMASIO, H. Sensing, feeling and consciousness. Philosophical Transactions of the Royal Society B, v. 379, n. 1908, p. 20230243, ago. 2024. | DAMASIO, A.; DAMASIO, H. Feelings are the source of consciousness. Neural Computation, v. 35, n. 3, p. 277–286, 2023.

4 Cf. Baruch de Espinosa, Ética, III, prop. 6: "Cada coisa esforça-se, tanto quanto pode, por perseverar no seu ser." O conatus não é uma escolha deliberada nem um impulso vitalista: é a necessidade ontológica que define cada modo singular.

5 Sigmund Freud, Além do Princípio do Prazer (1920), trad. John Reddick (Penguin Classics, 2003). A formulação "o objetivo de toda vida é a morte" aparece no capítulo VI. Freud apresenta a hipótese com cautela, reconhecendo seu caráter especulativo.

6 A interpretação da pulsão de morte como impulso de expansão, e não de cessação, é inspirada numa série de posts publicados pelo escritor Vinícius Portella no Twitter/X.

7 Marilena Chauí, A Nervura do Real II: Imanência e Liberdade em Espinosa (São Paulo: Companhia das Letras, 2016), cap. VI. O trecho citado refere-se ao mecanismo de associação de imagens corporais demonstrado na Ética, II, prop. 18, escólio.